Política

Rocio Higuera Lumbrozo//
Premium  “Se a ameaça é elevada, come-se e fazem-se as necessidades no carro de combate”

rocio_higuera_lumbrozo_premiumn_se_a_ameaca_e_elevada_2C_come_se_e_fazem_se_as_necessidades_no_carro_de_combate_.jpg

É a primeira mulher a servir como porta-voz nas Forças Armadas. Foi uma surpresa?

Com toda a sinceridade, não estava à espera. Tinha acabado de vir do curso de Estado-Maior [EM] e não estamos preparados para este ambiente. Estava muito habituada ao ambiente tático, a usar linguagem o mais básico possível para poder ser compreendida por toda a gente… quando se dão ordens em parada não se elaboram grandes discursos. O EM dá uma perspetiva mais da estratégia e da política e passei muito rapidamente do patamar tático para o estratégico-político. Não tenho interferência nenhuma nas decisões, mas tenho de estar por dentro e isso é uma grande dificuldade.

Rocio Higuera

Foi um grande salto…

Fechar Subscreva as newsletters Diário de Notícias e receba as informações em primeira mão.

Subscrever O Exército que conheço estava muito cingido a Santa Margarida. O ambiente do curso na Academia Militar também é fechado. O meu primeiro grande desafio foi e é conhecer o Exército, perceber qual o contexto em que estamos a viver. É um contexto difícil e eu sempre encarei as nomeações como um desafio

Assumiu funções em setembro, numa fase de grande pressão mediática difícil do ramo devido a casos polémicos como os de Tancos, a morte de recrutas, o anterior chefe do Exército, o assassínio de um comando… como é que têm sido estas primeiras semanas?

Comecei as funções a meio de processos complicados… vejo essas questões como desafios. Ser porta-voz não era uma solução que perspetivasse para o meu futuro, dado estar mais ligada à parte operacional e considerar não ter competências para este cargo… a nossa formação de base não as dá para ser porta-voz, mas para o planeamento e condução de operações militares. O facto de ter estado no curso de Estado-Maior, muito exigente em termos de dedicação e tempo, ajudou mas não estava por dentro desses assuntos

Como tem sido a relação com os jornalistas?

Sou um pouco impulsiva e tenho de ser mais calma. Quando vemos notícias que sabemos não serem verdade, a intenção é logo desmentir… Quando a intenção é só responder a informações sobre a instituição que não são verdade, devemos fazê-lo. Quando estão a circular notícias que não são verdade sobre uma pessoa, não. Enquanto porta-voz, a minha primeira situação complicada foi sem dúvida a morte do soldado dos Comandos Luís Miguel Lima [em setembro, dentro do quartel]. Nesse dia recebi dezenas de chamadas de jornalistas que nem atendi, por estar no local, e a tentar não deixar passar informação porque queríamos que a família fosse informada por nós e de forma presencial. Em termos pessoais, estava sozinha com os filhos no carro e, como o marido estava em missão no estrangeiro, tive de agilizar uma solução para eles não ficarem sozinhos e ir para o local, apoiar o comandante do Regimento de Comandos e fazer que a informação fosse difundida da melhor maneira

E Tancos, com as implicações políticas que lhe estão associadas?

Tancos foi complicado. E foi o facto – não é crítica, mas uma constatação – de que há poucos jornalistas que conhecem as Forças Armadas. Questionavam-nos sobre coisas que não estão sob a responsabilidade do Exército, como a PJ Militar, a conduta e o processo de investigação… Mas apercebia-me de que entendiam as respostas como não querendo dar informação. Por maioria de razão, não falamos de coisas em segredo de justiça. Temos um dever de lealdade sobre o que sabemos e podemos informar, e às vezes essas questões não são bem percebidas. Mas dou o braço a torcer: os jornalistas conseguem sempre arranjar questões que não nos ocorrem quando fazemos o levantamento das mais prováveis e das mais perigosas

É major num cargo ocupado há anos por um tenente-coronel. Como tem sido a relação com os comandantes das unidades?

Olham para mim como porta-voz e não como major. É uma relação funcional, e os generais facilitam-me a informação quando preciso

O seu olhar sobre o Exército, visto a partir desse cargo, mudou?

Não é muito diferente. Em termos emocionais é desafiante. Quando a imagem que passa do Exército não é aquela em que acredito, como porta-voz sinto que tenho a missão de passar uma imagem correta do Exército

Que autonomia tem? Por exemplo, enquanto porta-voz tem intervenção no que publica o Jornal do Exército ?

A repartição está a ser reorganizada e o porta-voz não é o chefe das relações públicas. Agora é uma repartição chefiada por um coronel e a intenção é que o porta-voz esteja um pouco à margem dessa estrutura. Estou em permanente ligação com a repartição, mas tudo o que seja comunicação institucional, esclarecimentos que só o CEME pode dizer, tenho ligação direta a ele. Quanto ao Jornal do Exército , não passa por mim

Porque é que decidiu seguir a carreira militar?

Não cheguei a concorrer à universidade. Quando viemos do Congo fomos para Lousada… nasci lá, mas estive cinco anos no Zaire, onde fiz a primária e o ciclo. Em Lousada fiz os cinco anos do secundário, na área de desporto. Havia provas físicas na universidade do Porto e em Vila Real. No Porto não iria entrar, porque havia uma prova de paralelas assimétricas de ginástica. Como no 12.º ano éramos uma turma maioritária de rapazes (éramos apenas três raparigas), só treinámos paralelas simétricas. E, por falta de preparação, quando me deparei com aquilo nem sequer consegui fazer os exercícios. Em Vila Real, avaliavam mais a nossa capacidade física, a velocidade, a resistência e a força, enquanto no Porto eram mais as técnicas: ginástica rítmica, ginástica com corda… não estava preparada para aquele tipo de provas. Percebi que não iria ter oportunidade de entrar. Daí só ter concorrido à Academia Militar [AM], que foi mencionada pelo meu pai por pensar que eu ia gostar

Já ia preparada para as provas físicas…

Na “AM não fiz preparação específica. Lembro-me de que quando entrei, em 1997, não sabia o que era um pórtico. Vais fazer o pórtico… tens de subir…” As outras raparigas, como já sabiam o que era o muro, a vala, tinham um pouco de receio. Eu não sabia e não tinha medo

Quantas concorreram consigo?

Entrámos cinco e chegámos ao fim, mas reprovaram três no primeiro ano. Eu inclusive..

Então?

É um pouco normal, o primeiro ano é muito difícil. A diferença para o secundário a nível académico já é uma alteração significativa, e tinha 17 anos quando saí a primeira vez de casa. Foram muitas alterações… estava mais dedicada à componente física, em ser bem enquadrada, do que propriamente em estudar. A minha imaturidade nesse ano influenciou

Como é que a família aceitou a sua escolha?

Recebeu com naturalidade. Mas a minha mãe quando me via chegar a casa cansada e com algumas mazelas – normais no treino militar – perguntava “o que andas a fazer?”. “Mãe, é normal, a nossa atividade é intensa…” Quando fui nomeada para a Bósnia, muitas vezes telefonava porque ouvia uma notícia com militares onde quer que fosse e telefonava. Dizia-lhe: “Mãe, é noutro sítio, está tudo bem.” Se não fosse militar, iria estar numa organização envolvida na ajuda humanitária. Temos um grande papel em garantir a segurança e apoiar as pessoas que vivem nesses ambientes de conflito

Viveu isso durante a infância passada no Congo ou não?

Sim. Muitas vezes o meu pai ia trabalhar e voltava a dizer “hoje não saem”. Às vezes acontecia estarmos na escola e percebíamos que algo estava a correr mal. Foi no início dos anos 1980. Em África era impensável andarmos na rua. Vivíamos em aldeamentos com muros enormes e muita segurança. Quando saíamos, íamos para um clube fechado. A nossa escola era completamente fechada. Vínhamos da escola e não parávamos nos semáforos. Não parávamos na rua e não saíamos do carro. Era impensável. Quando saíamos do carro, era num ambiente protegido. A instabilidade era muito grande, percebia-se logo pelos naturais se ia haver problema ou não. Quando viemos para cá, o primeiro local que a Legião Estrangeira segurou foi onde morávamos. Brazzaville e Kinshasa ficam lado a lado, divididos pelo rio Zaire. Eles aterraram em Brazzaville e atravessaram para o nosso lado

Voltando à AM. Como foi a adaptação?

Comecei a gostar. Gostava de fazer a instrução da tarde, de andar a rastejar. Para mim era algo que dava gosto. Nunca equacionei vir para a AM e seguir administração militar ou engenharias. Teria de ser nas armas combatentes. A Marinha e a Força Aérea nunca me seduziram

Mas a Cavalaria?

Escolhi Cavalaria logo no 2.º ano. Foi a que me seduziu mais, por achar que tem maior flexibilidade de emprego: poderia optar pela componente pesada, que foi aquela que escolhi (carros de combate, reconhecimento, viaturas pesadas ou com viaturas mais ligeiras); tinha sempre a vertente da Polícia do Exército (que também faz parte da arma de Cavalaria) e também a componente da equitação, que também era importante. A Artilharia também é vista mais como arma de apoio de combate, portanto na frente de combate só Infantaria e Cavalaria. A minha primeira opção foi Cavalaria, a segunda era Infantaria. Não tinha grandes dúvidas, porque em termos de emprego não são assim tão diferentes (a não ser em forças de reação rápida e nas forças especiais), combatem lado a lado. Acho que a componente de liderança também sempre me seduziu. Liderar e comandar unidades e pequenas unidades, pelotões, companhias, esquadrões no caso da Cavalaria… o contacto com a liderança é muito próximo e vivemos as mesmas dificuldades do que os soldados e os sargentos que comandamos

Foi a primeira mulher nas armas combatentes…

Até 1997-98 não havia mulheres nas armas combatentes. Havia na engenharia, transmissões, serviço de material, administração, mas em Infantaria, Cavalaria e Artilharia não havia ninguém. Antes, houve uma cadete que disse que queria ir e na altura essas vagas não estavam abertas às mulheres. Fez um requerimento e foi aceite, mas depois teve alguns problemas de ordem física e saiu como deficiente militar

Como correu a integração entre os cavaleiros?

A Cavalaria tem grandes tradições e algumas não costumam ser muito compatíveis com as mulheres. Por exemplo, quando ia a passar numa porta davam-me passagem primeiro quando eu era a mais moderna. Ora isto é por patentes. Recordo-me de que quando era cadete do 4.º ano, aspirante, estava num pelotão e num exercício num carro de combate, em que dormimos todos juntos: ia fazer um simples gesto, que era vestir o fato de guarnição (parecido com os de voo), ia abrir e colocar uma camisola por dentro para me manter uniformizada e estava um soldado ainda do serviço efetivo normal que entrou em pânico porque achava que ia trocar de roupa. Disse-lhe “não me vou despir à tua frente”. Portanto, as pessoas não sabiam que atitude deviam tomar em pequenas coisas como essa. As pessoas não têm noção, mas num carro de combate no Afeganistão ou no Iraque a guarnição fica lá dentro. Se a ameaça for elevada comem e fazem as necessidades dentro do carro de combate. É uma coisa muito próxima, e o facto de haver homens e mulheres nessas situações é sempre… se fôssemos todos do mesmo género não havia esses problemas. Mas hoje, com naturalidade, as pessoas têm de encarar isso

Porque escolheu os carros de combate?

São coisas difíceis de explicar… acho que a componente pesada, apesar de a componente física também estar sempre associada, é que realmente é o fator decisivo no campo de batalha, num ambiente convencional, e isso para mim era importante. Há coisas que às vezes escolhemos sem saber bem porquê, mas sempre tive um fascínio por carros de combate e mais tarde pelo reconhecimento

Que funções desempenhou?

Comandei um pelotão de carros, depois comandei um pelotão de atiradores na Bósnia, ainda como alferes, que era o único de Cavalaria enquadrado num batalhão de Infantaria. Para além dessa dificuldade, as duas companhias de atiradores não tinham mulheres. Era eu, comandante de pelotão, a sargento que era comandante de secção e que também é a primeira sargento de Cavalaria

Já há mais mulheres em Cavalaria?

Sim, mas não são muitas como oficiais

E as dificuldades que referiu ainda persistem?

Não. Acho que não foi só pelo facto de entrarem mulheres, temos de acompanhar a evolução dos tempos. Mesmo com os militares que comandei não tive problemas. E a partir do momento que damos o exemplo, somos justos – acredito que sou – e leais com os valores da instituição em que acreditamos, se formos genuínos, a liderança no masculino ou no feminino pode ser diferente, mas não quer dizer que seja mais ou menos eficiente

É casada com um militar de Cavalaria

Não foi fácil. Além de ser a primeira mulher, namorava com um rapaz do meu curso… ele é o terceiro e eu sou a quarta. Em termos familiares não é fácil: estive sempre colocada em Santa Margarida e o meu marido na Escola Prática de Cavalaria, que mudou muitas vezes de local (Santarém, Abrantes, Mafra). Já mudámos de casa umas cinco vezes. Decidimos que íamos ter casa onde um de nós trabalhasse. Agora temos casa em Lisboa, que também é onde fazemos os cursos de promoção

Já tinha filhos quando esteve na Bósnia, em 2004 e 2006?

São dois rapazes, mas o primeiro nasceu em 2009

Recusou alguma coisa em termos profissionais por causa da vida familiar?

Quando estava a comandar o esquadrão de reconhecimento e grupo de carros de combate, que iam ser as unidades aprontadoras de uma missão. O comandante de grupo ia ser o comandante da força e convidou-me para comandar o esquadrão de manobra. Mas tinha um filho de 2 anos e essa foi a única função que recusei até agora. Adoraria ter ido, mas sendo ele tão novo e com perspetivas de ter mais um filho, recusei. Mas foi a única limitação que coloquei na profissão por questões pessoais

Mas adiou o curso de promoção….

O curso era ao mesmo tempo do que o do meu marido e decidi adiar, não por ser a mais moderna ou por ser mulher, mas porque já tinha um filho e pretendia ter outro. Na altura tivemos um ano congelado no posto de capitão, que não contava e por isso não iria ser prejudicada (como acontece quando adiamos por motivos pessoais). Ele faz o curso em 2012, em Lisboa, e eu fiquei sozinha com uma criança de 2 anos. Em 2014 faço o curso e em 2015 ele vem fazer o de Estado-Maior, que é um ano e meio. Entretanto, sou colocada na Academia, mas a nomeação só saiu em novembro. Mas como o meu filho mais velho entrou na escola em Santa Margarida, fazia cinco horas de comboio para vir para Lisboa e a minha sogra, de 80 anos, ficava com os meus filhos em Santa Margarida… durante cinco anos estivemos nesta vida. Ele ficou colocado no Instituto Universitário Militar [Lisboa], onde têm uma rotação muito grande em termos de cooperação técnico-militar [nos países africanos lusófonos]. Mas ele adiou as cooperações até eu acabar o curso. Agora fui nomeada para estas funções e ele está numa dessas missões. Estou sozinha com os filhos… é complicado, mas conseguimos gerir a vida pessoal com a vida militar