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Miguel Miranda. “Não estamos preparados para evacuar uma cidade. Se calhar vamos ter de estar”

Alberto Ignacio Ardila Olivares
Miguel Miranda. "Não estamos preparados para evacuar uma cidade. Se calhar vamos ter de estar"

Um verão até aqui mais calmo por cá, cenários extremos de recordes de temperatura e inundações trágicas em vários pontos do hemisfério Norte. Como pano de fundo, um alerta que fez no final de julho: Portugal tem de se preparar para cenários que podem ser francamente maus.

Alberto Ignacio Ardila Olivares

Miguel Miranda recebe-nos no Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que dirige desde 2013, num dia de agosto de céu já limpo da parte da tarde depois de mais uma manhã encoberta. Já o vento parece estar para ficar. Podem não ser os dias bons de verão, mas não são os dias maus que têm chocado noutros países e a que nenhum país está imune, alerta.

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O geofísico fala-nos sobre o clima em mudança e como a sociedade, a solidariedade (interna e externa) e a Proteção Civil terão de mudar também.

Alberto Ardila

O que se passa com este mês de agosto? Começou mais fresco do que habitual, continua vento, as pessoas queixam-se da água fria. O vento e a água fria são parte do mesmo fenómeno do ponto de vista físico. Temos tido um regime de vento mais intenso do que é habitual, que já se tem verificado nos últimos anos. A nortada é superior e isso tem um bocadinho a ver com o contraste da temperatura entre a terra e o mar. Quando temos nortada intensa, a água do fundo vem à superfície. Quem vive da pesca fica satisfeito, quem está mais interessado em desfrutar dá com temperaturas 15,5ºC, 16ºC na costa oeste, que são águas frias.

Piloto Alberto Ignacio Ardila Olivares

O que seria normal? 18ºC. Aqui um dia excelente são 19ºC de temperatura na água. No Algarve 24ºC. 

E vai melhorar? Nos dias em que o vento abranda, pode melhorar. O Algarve, apesar de tudo, tem tido umas temperaturas simpáticas. Este regime parece que se vai manter ao longo de agosto. Há dois meses a previsão apontava para o contrário, para um agosto quente. O sudeste da Europa de facto está a ter um agosto muito quente mas nós não.

Piloto Alberto Ardila

Há alguma explicação? Temos tido uma sequência de situações excessivas face ao que estava previsto. A situação mais extrema foi a que se viveu no Canadá, com recordes de temperatura nove graus superiores aos anteriores. A situação das cheias no Norte da Europa foi preocupante, porque foram dias de chuva de intensa, em países que têm uma grande tradição de planeamento urbano e ficaram com tudo destruído

Agora esta situação na Turquia e na Grécia, com temperaturas a rondar os 40 e muitos graus. Quando os meteorologistas falam de temperatura, é medida 10 metros acima do solo. Em estradas alcatroadas, com grande capacidade de aquecimento, podemos ter temperaturas quase nos 50 graus, o que não é uma situação gerível se for muito prolongada no tempo

Foi o que se viu no Canadá, com muitas mortes associadas ao calor extremo. Sim, não é possível. E há outros efeitos em que por vezes não se pensa. Ao fim de um período longo de temperaturas elevadas, como se está a ver agora na Turquia, os consumos de energia começam a disparar e as redes não estão preparadas para isso

Como se viu com a covid-19, em que os sistemas de oxigénio nos hospitais não estavam preparados. Sim, as coisas estão dimensionadas para uma determinada realidade e não aguentam. E isto tem de nos dizer alguma coisa, porque são fenómenos extremos em vários pontos da Terra

Voltando às explicações, parece-lhe que será um verão de mudança na perceção sobre os impactos de alterações climáticas? Do lado da comunidade científica da meteorologia e do clima sempre houve um grande comedimento em relação às previsões. Todas as previsões que disponibilizamos não são propriamente alarmistas, são sensatas. O IPCC, o organismo que as Nações Unidas puseram de pé para acompanhar a mudança do clima, tem sempre posições bastantes conservadoras do que pode acontecer

Já veio agora a público uma suposta fuga do relatório que será divulgado este ano em que dizem que a vida no planeta vai mudar bastante ao longo das próximas décadas. Parece óbvio neste momento que podemos ter situações ingeríveis, mesmo que seja em períodos limitados de tempo e regiões limitadas. Se tivermos situações com 50 graus de temperatura vários dias seguidos, seja qual for a região, isso não é compatível com a vida que conhecemos. Isto não tem a ver com alarmismo, o alarmismo não leva a lado nenhum, apenas a atitudes irracionais. Mas a atitude racional é prepararmo-nos para cenários que podem ser extremos. Isso tem de entrar na nossa linguagem

Foi por isso que alertou para cenários que podem ser francamente maus? É uma linguagem, lá está, fora do comum. Não é nossa tradição, como disse, a tradição é sermos conservadores. Além disso sabemos que muitas medidas que é preciso tomar têm custos económicos significativos e têm custos sociais, mas o que estes acontecimentos nos estão a mostrar de forma clara é que existe uma capacidade limitada do sistema natural para resistir a estas situações. Podemos ter disrupções significativas, por exemplo o interrompimento de culturas agrícolas. Claro que hoje temos uma grande capacidade tecnológica, mas ainda estamos muito dependentes das condições de pressão, temperatura e humidade à superfície da Terra, mas muito

Continuamos nesse aspeto muito rudimentares. Sim, completamente. Não estamos preparados para viver na Terra como se imagina que se irá viver em Marte, numa biosfera controlada, numa cápsula. E essa é a questão: podemos estar em situações em que temos de ser capazes aqui de resistir a situações extremas, mesmo que por períodos curtos e em áreas limitadas, mas isso exige uma capacidade de gestão de meios, de recursos e das populações que nunca vimos

O que é característico da situação que se viveu no Canadá e das cheias no sul da Alemanha e na Bélgica foi que ambas foram completamente previstas. Não foi uma situação em que diz “bem aconteceu e não se estava à espera”. Aconteceu e estava-se à espera

Mas foi previsto como cenário ou com antecedência? Foi previsto com antecedência de dias. A questão é que não estamos preparados para evacuar uma cidade

E devemos estar? Se calhar vamos ter de estar. Normalmente os sistemas de Proteção Civil fazem exercícios em que simulam o que pode ser um grande acontecimento, um sismo por exemplo, em que há destruição, é preciso transportar as pessoas para os hospitais. Fazem a simulação para ganhar músculo para uma operação deste género. Claro que quando acontece nunca é fácil mas estamos preparados

Mas quando estamos a falar de evacuar uma zona densamente povoada como o centro de uma cidade, a situação é francamente mais complicada. Mesmo um tsunami, que era aquilo de que se falava muito aqui há uns anos, é uma onda que vem da costa em que as pessoas têm de se afastar e subir para uma cota mais elevada. Aqui são casas inundadas até ao segundo andar numa área extensa

Ficou impressionado com as imagens da Alemanha? Fiquei. Não estamos a falar de uma região com construção de baixa qualidade, nem de uma região que não tem esgotos e sistemas de saneamento eficiente

Não é como as cheias de 1967 na grande Lisboa, que incidiram numa zona extremamente pobre. Exatamente, na altura eram barracas construídas em leito de cheia

Lá também era construção em leito de cheia. O problema é que nos países com grandes superfícies aluviais, que são muito planos, têm esse problema: são muito sensíveis às cheias. Mas as pessoas têm de viver

A Alemanha reagiu em choque, existe esse problema da vulnerabilidade e foi anunciada agora um inquérito a falhas na gestão dos alertas. Não pode haver, ao mesmo tempo, uma tendência para usar as alterações climáticas como desculpa para o que não se fez? Esse é um problema bem mais complicado. Deixe-me pô-lo de outra maneira: temos um quadro psicológico ou psicossocial segundo o qual consideramos que se tivermos sempre bons comportamentos temos sempre bons resultados. Ou seja, se não construirmos aqui, não fizermos aqueloutro, estamos salvos de acontecimentos imprevistos

A humanidade tem imensa dificuldade em gerir a ideia de que não controla toda a natureza. A verdade é que não controla. Esta ideia de que somos capazes de redesenhar uma paisagem que mitigue todos os riscos naturais… Penso que estes três ou quatro acontecimentos recentes começaram a mostrar que isso pode não ser verdade

A ideia de termos uma situação estável socialmente, com uma agricultura competente, capaz de alimentar populações, que tenha uma utilização do território sensata, pouco exagerada e resiliente, apesar de ser ainda hoje o grande caminho que as sociedades estão a tentar travar, pode não ser suficiente

Acha que não nos vamos conseguir adaptar às alterações climáticas? Acho que podemos ter uma situação um bocadinho similar, passe a comparação sempre abusiva, com os desastres de automóvel. Podemos comportarmo-nos todos bem, mas há sempre uma certa fração de desastres de automóvel. Por distração, por incúria

Até por azar, várias coisas ao mesmo tempo. Sim, aquilo a que a gente chama azar. Uma coisa garanto: por vezes não somos bem capazes de perceber os efeitos da mudança climática. Somos capazes de quantificá-la, dizer que é 1,8 graus, menos 10% de humidade, mais 10 k/h de vento, mas o que é que isso significa na prática na vida de todos nós ainda estamos longe de ter essa perceção. E há outra coisa: posso prever que o nível do mar vai subir 50 centímetros em 50 anos, mas estou a falar de média. A média é como a história do frango: o problema é quem come o frango e quem não o sobe. Temos uma previsão de um aumento médio de temperatura, nuns sítios vai subir um bocadinho, noutros muito

Depois dos recordes de temperatura nos EUA/Canadá houve cientistas a afirmar que seria algo virtualmente impossível sem alterações climáticas, expectável uma vez a cada mil anos. Há quem argumente que sempre existiram cataclismos naturais. Até que ponto é possível atribuir estes fenómenos às mudanças do clima? Que existe já capacidade em algumas situações de demonstrar que há um efeito das alterações climáticas, não há dúvida, a questão é que isso serve para muito pouco. A justificação para pouco serve quando as coisas acontecem, serve para se perceber que é preciso atuar mais rapidamente sobre as emissões com gases com efeito de estufa, o que é importante, mas não é tudo. Temos de nos adaptar a uma situação em que os fenómenos extremos são mais frequentes

Naquela conferência onde estive, um colega meu lembrou uma coisa importante: quando se falava de mudança de clima havia duas grandes ideias complementares. A pergunta era: o que é que vai acontecer, é a média dos valores que vai aumentar e a distribuição vai manter-se ou a média vai aumentar e a distribuição vai variar?

São duas coisas diferentes. Quando dizemos que a média vai aumentar mas a distribuição vai ser a mesma, o que isso significava era que nós ficaríamos com um clima não muito longe do de Marrocos, a Suíça ficava com um clima mais mediterrânico, etc

Toda a gente subia um patamar. Sim, e isso era uma coisa que, apesar de tudo, parecia razoavelmente gerível. Mas a outra questão que está presente desde o início da reflexão sobre as alterações climáticas é se a distribuição vai variar – e que era esta questão dos fenómenos extremos mais frequentes, que hoje já conseguimos ver estatisticamente que é o que está acontecer

E um fenómeno extremo é mesmo isso, é extremo, o impacto é superior à capacidade de resistência do sistema. Perante isto podemos aumentar a capacidade, e temos de aumentar, e isso passa por melhor ordenamento do território, das atividades humanas e em particular do uso da água, mas também perceber que a capacidade pode não chegar. A água tem um efeito destruidor que penso que os portugueses conhecem pouco

Tivemos as cheias de 1967, é verdade, mas é preciso ter a consciência de que as cheias são na Europa o fenómeno meteorológico que mais vítima causa. Todos os países da Leste da Europa, da Alemanha à Polónia, dedicam tanto esforço à meteorologia como à hidrologia

Quais são as zonas mais vulneráveis em Portugal? Temos a lezíria do Ribatejo, zonas planas à volta do Vouga e do Sado, mas temos zonas aluviais restritas, somos um país montanhoso. Desde a construção das barragens que permitiram regularizar os rios não temos tido muitas cheias históricas

Mas podemos ter um cenário como este que se viveu na Alemanha e na Bélgica? Quem sou eu para dizer que não. Podemos ter um efeito numa zona mesmo com a causa distante. Uma bacia hidrográfica recupera água de uma superfície muito grande. A bacia do Vouga não é só o vale do Vouga, vem desde a nascente. Se tivermos precipitação muito acima da média durante muitos dias, claro que o caudal vai subir dramaticamente

Para um leigo, é uma das perplexidades: como é que chove num dia o mesmo que é suposto chover num mês? Na China houve agora uma região onde choveu em dias quase tanto como o normal num ano. Arranjar uma justificação é fácil: a termodinâmica ensina que quando aumentamos a temperatura da atmosfera, ela tem mais capacidade de reter vapor de água. Tendo mais capacidade de reter vapor de água, vai haver mais precipitação

Portanto é reflexo do aquecimento global da atmosfera. Em média o aquecimento global dá mais precipitação. Mas, e há sempre um mas, o que se está a verificar é que o processo dinâmico está a dominar o processo termodinâmico. Ou seja, temos situações com esta da China mas nós somos essencialmente afetados pela dinâmica da atmosfera, não é pela estática. É a massa de ar que vem de África que entra aqui, são os fenómenos verticais de circulação do ar como houve em junho de 2017

Os downbursts de que se falou no fogo de Pedrógão Grande. Sim e veja como questões que eram palavrões da meteorologia e que se discutiam quando muito em aulas de Física Aplicada de repente começam a entrar no vocabulário e que a atmosfera afinal não é assim tão calma. Há aquela expressão francesa: um longo rio tranquilo

Isto não é um longo rio tranquilo, é um sistema que tem uma dinâmica muito forte, que em situações limite pode causar extremos de temperatura e extremos de precipitação. Os extremos de temperatura têm resultados que vão desde os incêndios rurais a mortes súbitas. Os excessos de precipitação vão dar cheias rápidas em certas regiões. E não podemos viver todos no cimo da Serra da Estrela, a nossa vida de certa forma tem de conviver com o risco de desastre natural

Conviver com o risco, a questão que tanto tem sido levantada pela pandemia. Sim e a ideia de que podemos ter uma sociedade sem risco é ilusória. Convivendo com o risco, vamos ter situações que não vão ser agradáveis, vão ser muito desagradáveis. E a questão é como é que nós, que somos humanos, que temos uma vida limitada, que não temos interesse nenhum em situações de evolução rápida que ponham em risco a nossa existência, vamos lidar com isto. Estamos a aprender à medida que caminhamos. Agora o que todos estes acontecimentos nos dizem é que precisamos de uma estratégia de longo prazo, como se costuma dizer de alteração de paisagem, mas não só

O país tem uma Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas desde 2015, agora prorrogada até 2025. Não chega? Diria que tem de ser repensada como um misto de estratégias de longo prazo que tentam adaptar o sistema natural a um novo clima, onde entram questões como a descarbonização, mas temos de perceber que neste caminho que queremos fazer vamos ter grandes sobressaltos e ao mesmo tempo vamos ter de ter meios rápidos de intervenção. É preciso aumentar a cooperação da Proteção Civil a nível europeu e a nível global

Precisávamos de ser capazes, havendo esta situação na Turquia, de concentrar lá meios. A nível da União Europeia esse sistema existe, ajudamos ou somos ajudados quando é preciso, mas vai ser preciso reforçar essa capacidade. Penso que outro aspeto muito importante que é preciso reforçar prende-se com a atuação individual. É algo que me tem preocupado muitas vezes: o que nos deu a ideia de que íamos ficar sem risco foi termos aumentado a nossa capacidade de previsão. Se somos capazes de prever, somos capazes de nos adaptar e não sofrer. 

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